Uma última noite na Cidade
Estava tentando se recuperar de uma das piores ressacas de sua vida quando viu as placas plásticas de sua porta serem derrubadas. A face peculiar, mas conhecida, olhava para ele a medida que entrava em seu apartamento. A placa de metal dourado no lugar da testa do invasor lhe fez lembrar a conversa entreouvida na noite passada:
“… um mercenário mexicano perdeu boa parte de sua caixa craniana em um acidente de moto particularmente desagradável. Sobreviveu por muita sorte, apesar da perda de massa encefálica, e em vez de apelar para o lugar-comum, resolveu colocar no lugar do crânio uma prótese de titânio revestida em ouro 24k. E já que ele estava esbanjando mesmo, aceitou a sugestão de seus médicos coreanos e fez um enxerto de pele transparente na cabeça, deixando à mostra a peça de joalheria que reveste seu cérebro…”
O sol da tarde que entrava pela janela fazia seu crânio reluzir, e junto com a luz azul do arco elétrico de sua arma, coloria a parede caiada do quarto. Ele sabia que em breve seria fritado. Mas em vez de puxar o gatilho, Cranio d’oro sentenciou: “Eles querem que você saia amanhã ao meio dia, e limpe a rua.”
A perspectiva de sair em um meio-dia de verão, previsão de 50 graus com alta intensidade de radiação solar para exterminar um grupo de viciados em OCAP[1] com as mentes destruídas, tomados por uma fúria assassina, era realmente assustadora, mesmo para uma pessoa brutalizada pelo ambiente hostil da Cidade. Nas primeiras horas da noite, tentou arquitetar um plano de fuga. Mas seria impossível fugir de trem ou avião de uma cidade dominada por Eles, seria capturado no momento da compra da passagem, e não poderia fugir num carro de passeio pelo Sertão durante o dia, com Eles em seu encalço.
Tomou duas pílulas para um sono sem sonhos, e acordou por volta das dez com a fome de quem tinha passado mais de vinte e quatro horas sem comer. Depois de um prato de macarrão de algas e carne sintética, típica refeição acessível para pessoas de classe baixa na Cidade, olhou pela janela e viu a balbúrdia dos grupos de viciados correndo pelas ruas, cobertos com farrapos que mal os protegiam do sol nocivo do século XXI. Não fazia muita diferença, pois nenhum deles iria viver o suficiente para morrer de câncer de pele.
Exatamente ao meio dia, tirou a arma da gaveta, caminhou até a porta, e na curta distância entre uma e outra finalmente compreendeu que, apesar do desastre climático, completo desajuste social, caos político e proliferação de toda a sorte de ameaças à existência humana, ainda estávamos aqui, vivendo como podíamos na Cidade desde o tempo de antes de nossos pais, sobrevivendo a todas as ameaças impostas pela história. Isso lhe confortou um pouco, mas não o suficiente para evitar colocar a cápsula de cianeto no dente. Afinal, não sabia se teria coragem para morrer todas as mortes que a Cidade poderia lhe oferecer.
[1] – OCAP-27, é a vigésima sétima variante de uma substância psicoativa incapacitante que contém nanodispositivos capazes de entrar em contato com seus criadores e enviar um feedback das informações vitais dos usuários, o que permite que novas variantes mais potentes e viciantes sejam lançadas. No último ano, OCAP ganhou uma variante nova a cada mês. Enquanto estão sob seu efeito, seus usuários experimentam um contínuo e progressivo entorpecimento do corpo e distanciamento da realidade, e então repentinamente o efeito acaba. Entre meia hora e uma hora do fim do efeito, os primeiros sintomas da abstinência surgem, primeiro pequenos tremores, depois uma vontade muito grande da próxima dose, e caso esta não venha uma irritabilidade que se desenvolve em uma fúria assassina incontrolável, levando o viciado a cometer latrocínios em série até conseguir o suficiente para a próxima dose.




