Ciranda cirandinha e outras coisinhas tais
Perguntou com o sobrecenho franzido: por que? E o pai: por que o que, filho?
Por que o amor acabou?
Perguntou com o olho meio arregalado: por que? E a tia, cuidadosa: por que o que, galegóvski?
Por que o lobo engoliu a vovozinha?
Perguntou com um fio de indignação: por que, mamãe? E a mãe, doce, doce: por que o que, filho?
Por que o dia tem que acabar?
Aí depois de tudo, tomava um gole do suco de uva em copo de vidro e dizia: huum, que buquê!,
jogava um charminho e uma risada, abraçava a avó enternecida e finalmente se rendia à noite e
ao sono.
L.
Em cada desdobramento da existência existe algo de desumano
Sobre o sol que a natureza nos dispõe, ela mesma somos nós, há tudo aquilo que vai contra aquilo que somos. Eu me impressiono com a capacidade das pessoas de criar, de construir, talhar a madeira e moldar argila. Construir complexidades que desmontam as intenções naturais, o artificial. Vejo no gesto mais doce e padronizado de uma mãe para seu feto crescido, um desejo da natureza de esmagamento, como se torcesse com as mãos e lentamente as evidências de vida fossem se dissipando, em sentidos opostos, formando o radial do maior desejo velado da natureza, destruir seu desvio de caminho.
O desvio estendeu-se e não mais pode ser ignorado, ou relatado como uma estação. O inverno nos afrouxa os reios da libido, focaliza nossa atenção para aquilo que reflete e não tem carne. No inverno estamos nos céus, pois o sol dá trégua em seu temperamento. Nossos olhos não se sentem frágeis olhando o rei. Cai o faraó. Cegar o ímpio que ousou olhar o representante de deus na terra, assim como aquele que ousar olhar a representação de deus no céu. Na primavera tudo vem em tempo, reflorescem as carnes, o sangue corre mais, engatando. As mulheres modificam-se como se rasgassem a pele e ressurgissem novas, brilhosas e revestidas em muco. O muco desprende-se com o calor que oferece toda sua mensagem àqueles que ainda persistem em viver. Os homens estão secos. Viver é persistir. Algo desumano mirado para o fim, como um arco esticado, força. A flecha aponta para o fim. Esta faz uma curva anti-horária e nos surpreende e denuncia os movimentos dos surpresos olhos quando flutuamos na morte. A flecha nos atinge. Fraquejar a distensão é cair nos braços da natureza e satisfazer seu desejo. Vivemos para a nossa negação trazida no verão. Momento de maior gasto de energia, e maior repulsa da natureza. As invariâncias não ali cabem, não há época mais dourada e ardente aos olhos da natureza quanto a afirmação do nascimento de fetos.
Olhamos as carnes e dedicamos tempo ao impulso natural e inatural de perseguir sendo o que somos e fazendo nascer mais de nós, porém não menos de natureza; pois sim, mais de desumano.
Mesmo nas relações mais finas, como uma linha da baba de uma aranha sinto me vivo perante o desejo da natureza de desumanizar. Somos alvos e assassinos de nós mesmos, somos parte da natureza e parte do desejo de praticar a desumanidade.
O outono ninguém sabe o que é.
Contribuição
Com o primeiro aprendi que não era a única a suar nas mãos. Com o segundo, que se você é canhota e ele destro, devem sentar de maneira a não esbarrarem enquanto escrevem.
O terceiro me ensinou que John e João, Peter e Pedro são os mesmos nomes em línguas diferentes e também a nunca gostar do menino mais bonito da sala, sob risco de dores de barriga e pesadelos.
O quarto me ensinou beijinhos no pescoço, que chegavam até a boca. Com o quinto, descobri que algumas famílias ainda vão à Igreja todos os domingos.
Com o sexto, aprendi que menores de idade que pegam o carro escondido não são bons partidos. O sétimo me mostrou que eu não precisava ficar tanto tempo parada na frente da porta do metrô, eu podia me levantar logo que ela abrisse.
O oitavo, que também foi terceiro, ensinou que timing é tudo.
O nono deixou mágoas, não lições. Precisou que o décimo me ensinasse que a angústia se tira como um ferrão, e que não adiantava sair atrás de um décimo-primeiro sonhando ainda com o sétimo, me esperando na estação.
Tema: Livre
Deadline: 05/10/11
Publicação até 10/10/11
Regras:
- O trabalho tem que estar de acordo com o tema especificado;
- O participante garante a autoria do projeto enviado;
- O envio máximo por participante é de 3 trabalhos autorais e
- Todos deverão ser enviados via e-mail(contato@teafotwohearts.com) ou via grupo no Flickr;








